Mães de primeira viagem: as dores e delícias da maternidade

As mães de primeira viagem contemporâneas têm aceitado mais as fraquezas e defendido o direito de assumir que maternidade não é só um mar de rosas

Mães de primeira viagem vivem surpresas e sustos ao descobrirem a maternidade.


Muito cultuada e até mitificada, a maternidade é um estágio de vida da mulher que traz mudanças em todos os sentidos. Desde alterações no corpo, para aquelas que tiveram filhos através da gravidez, como emocionais e de quotidianas, aqui incluindo também a maternidade via adoção. A maior parte das mulheres tenta se preparar para a nova fase. 

Em meio ao poço de lugares-comuns que envolvem esta relação geralmente baseada em amor incondicional, são muitos os desafios das mães de primeira viagem, perdidas em meio às grandes surpresas positivas e aos sustos, muitas vezes bem piores do que ouviam falar.

Cuidando de algumas pacientes que sofreram de depressão pós-parto, a psicóloga e terapeuta de família Helena Monteiro costuma fazer duas perguntas às mães de primeira viagem que chegam ao seu consultório: quais foram as boas e más surpresas de se tornar mãe

"Pode ser algo que talvez elas (as mães) já tivessem até lido ou ouvido falar, mas que, na vivência, ganhou outro sentido. E peço para dizerem se isso foi negativo ou positivo. A partir daí, o trabalho psicanalítico é de aceitação do que não gostou e redimensionamento daquilo que achou maravilhoso", explica Helena.

Amamentação: campeã das surpresas

De acordo com sua experiência profissional, a psicóloga conta que a amamentação é um dos fatores de maior causa das chamadas 'surpresas' de uma mãe de primeira viagem. 

"A grande maioria das mães deseja amamentar seu filho. Quando conseguem, relatam que 'era bem melhor do que eu esperava'. No polo oposto, há as mães que se frustraram por não conseguirem amamentar seus filhos. Seja por dor, desconforto, ansiedade. E os depoimentos giram em torno da frase 'isso me assustou mais do que falavam'", conta a terapeuta de família.

A jornalista Paula Autran, viveu os dois lados: a dor e a delícia com a amamentação. Mãe de primeira viagem aos 44 anos, Paula achava que seria doloroso, em função de ouvir sua mãe contar da péssima experiência que teve com ela e seu irmão. Mas ainda na maternidade onde seu filho nasceu, a amamentação de Pedro, hoje com seis meses, já fluiu bem. 

"Em casa, os dois primeiros dias foram sofridosPedro só queria mamar num peito, que ficou machucado e doía, enquanto o outro empedrava. Mas resolvi tirando o excesso do empedrado com bomba e foi incrível amamentar meu pequeno. Pena que foi só até ele fazer quatro meses, pois voltei a trabalhar fora logo, e com a maior frequência da mamadeira, ele não quis mais meu peito. Aí sofri à beça", desabafa a jornalista.

Os sustos das mães de primeira viagem

A adaptação com os cuidados e a primeira doença do filho estão no topo do ranking das surpresas desagradáveis relatadas pelas mães de primeira viagem. A também jornalista e especialista em marketing digital Ana Carolina Simões sentiu na pele o peso da inexperiência, mesmo com todo o apoio ao entorno: o pai do seu filho, a mãe e a sogra. Mesmo assim, os três primeiros meses com seu bebê foram o equivalente a 365 dias.

"Tudo foi muito intenso, cansativo demais. Um dia era diferente do outro, não tinha rotina, não existia noite nem dia. Eram 24 horas dedicadas ao bebê, sem poder comer direito, tomar banho, dormir. O que era isso? Não tenho a mínima saudade! Recém-nascido é lindo, mas podia nascer já com 6 meses pra dar menos trabalho", desabafa Carolina.

Segundo a psicóloga Helena Monteiro, não se trata de exagero de mãe de primeira viagem. Aquela imagem de propaganda de TV da mãe toda linda, dando banho no bebezinho, amamentando, um conto de fadas dificilmente  corresponde à realidade de milhares de mulheres. "Sejam mães de primeira, segunda, terceira, não importa qual 'viagem'", brinca a especialista.

"Para mim, esta fase parecia um filme de terror. Eu me olhava no espelho e as olheiras batiam no queixo. Emagreci muito, estava sempre com cabelo feio, unhas por fazer, sem direito a ir na depilação. Foram muitas privações. E santo é o homem que passa por isso com a mulher e a apoia. Porque nessa fase, tudo o que a gente menos precisa são de críticas e brigas conjugais", descreve Ana Carolina Simões.

O outro caso de susto intenso de uma mãe de primeira viagem é, sem dúvida, enfrentar problemas de saúde do filho. Considerada uma mulher forte e super resistente à dor, que até faz tratamento dentário sem anestesia, a mãe de primeira viagem Paula Autran não pode ver seu filho tomar uma injeção que desmorona. E se debulha em lágrimas. 

"Aos 5 meses, ele teve que ser internado por causa de uma virose. Quase morri ouvindo ele gritar por longos 33 minutos, enquanto as enfermeiras buscavam uma via de acesso ao soro naqueles bracinhos. Só conseguiram no pezinho. Eu senti meu peito ser rasgado. Não desejo essa sensação para o meu pior inimigo", relata a jornalista.

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